Compreendendo o homem barroco e o movimento literário

Compreendendo o homem barroco e o movimento literário

 

Como vocês viram na aula passada, após o período medieval deu-se início à era Clássica.a transição da Idade Média para a Idade Moderna foi marcada por uma série de eventos que afetaram a forma como o homem via o mundo e a si mesmo. Com o abalo do feudalismo e o fortalecimento do comércio, essa época experimentou uma mobilidade social inexistente até então: membros da nobreza empobreciam, enquanto pessoas humildes enriqueciam em decorrência das atividades comerciais.

Além disso, durante a Idade Média, o homem acredi­tava que os títulos de nobreza e a situação de nascimento determinavam sua condição; para esse homem, somente Deus poderia definir sua miséria ou riqueza. Entretanto, no início do século XV, essa postura de resignação presente na época medieval perdeu sua força: o ho­mem passou a acreditar que podia agir sobre sua vida e modificá-la. Assim, o teocentrismo, que vigorou durante a Idade Média, cedeu lugar ao antropocentrismo, concepção segundo a qual o homem está no centro do universo. O auge dessa visão antropocêntrica se dá com o Renascimento, movimento cultural que, pela retomada dos valores clássicos, realizou avanços significativos nas diferentes áreas do conhecimento.

Dois movimentos importantes marcaram o período: a Reforma Protestante e aContrarreforma: a primeira, desenvolvida no contexto renascentista, configurou um movimento de oposição à hegemonia da Igreja católica; enquanto a segunda, reacionária à Reforma, foi realizada a partir de propostas apresentadas no Concílio de Trento (1545-1563), que visavam ao resgate de va­lores religiosos medievais. Ddentre as recomendações realizadas no Concílio de Tren­to, estava a ênfase no trabalho de evangelização por meio da arte sacra e das missões evan­gelizadoras (como a Companhia de Jesus, que, no Brasil, teve como grande representante o padre José de Anchieta). Contudo, apesar do grande esforço da Igreja para recuperar valores religiosos medievais, o homem já conhecia suas potencialidades e tinha experimentado gran­des avanços científicos.

            Tudo isso nos permite compreender que o século XVII foi marcado pela dualidade: a fé católica e a razão humanista. Observe no quadro abaixo a contradição presente na estética barroca:

 

O estilo barroco foi deter­minado pela crise espiritual vivenciada pelo homem do século XVII, dividido entre religião (teocentrismo) e razão (antropocentrismo). A arte barroca, portanto, emerge da tentativa de conciliar valores antagônicos e inconciliáveis. Por essa impossibilidade, essa estética rejeita verdades absolutas e exalta a efemeridade da existência humana, a brevidade da vida. Assim, manifesta-se a ne­cessidade de aproveitar o momento (carpe diem6).

No contexto passageiro do Barroco, o que era bom pode se tornar mau, a luz passa à tre­va e a tristeza se transforma em alegria. Essa instabilidade é expressa nas figuras antitéticas (opostas), peculiares à estética barroca. No entanto, os poemas barrocos não se restringem à apresenta­ção de temas contrários: eles buscam a fusão, a conciliação desses elementos, quando, então, a antítese é levada ao extremo do paradoxo (a reunião de ideias contraditórias e aparentemente inconciliáveis, num só pensamento). Essas figuras de linguagem revelam a angústia oriunda da tentativa de conciliar perspectivas contrárias.

Contrariamente à arte do Renascimento (= Classicismo), que pregava o predomínio da razão sobre os sentimentos, no Barroco há uma exaltação dos sentimentos, a religiosidade é expressa de forma dramática, intensa, procurando envolver emocionalmente as pessoas. De certa maneira, assistimos a uma retomada do espírito religioso e místico da Idade Média, numa espécie de ressurgimento da visão teocêntrica do mundo. E não é por acaso que a arte barroca nasce em Roma, a capital do catolicismo.

Convivendo com o sensualismo e os prazeres materiais trazidos pelo Renascimento, os valores espirituais - tão fortes na Idade Média e desprezados pelo Renascimento - voltaram a exercer forte influência sobre a mentalidade da época. Uma nova onda de religiosidade foi trazida pela Contrarreforma e pela fundação da Companhia de Jesus. O que decorreu daí foram naturalmente sentimentos contraditórios, já que o homem estava dividido entre valores opostos. E a arte barroca, que exprime essa contradição, igualmente oscila entre o clássico (e pagão) e o medieval (cristão), apresentando-se como uma arte indisciplinada.

Resumindo, o Barroco tenta conciliar duas concepções de mundo opostas: a medieval e a renascentista. Assim, valores como o humanismo, o gosto pelas coisas terrenas, as satisfações mundanas e carnais, trazidos pelo Renascimento, que era caracterizado pelo racionalismo, equilíbrio, clareza e linearidade dos contornos, fundem-se a valores espirituais trazidos pela Contrarreforma, com ideias medievais, teocêntricas e subjetiva. Nasce então uma forma de viver conflituosa, expressa na arte barroca.

 

 


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Edina Moura